A TRAVESSIA
Espiritualidade. Educação. Arte. Política.
28 de julho de 2023
O amor genuíno...
21 de maio de 2021
A criação germina no interior, mas se faz viva nas trocas. | Prosa com tarô
Há alguns dias sinto uma inquietação no peito como se um pássaro vivesse no lugar do pulmão, preso entres os ossos da costela. Não é novidade que estamos todos exaustos. Nossa vida agora gira em torno de uma tela que emite luz azul. Um aparelho estranho quase se tornou um órgão extra que se sustenta fora de nós. E esse pássaro preso aqui dentro grita pela necessidade de voar entre os mais altos prédios até as árvores mais baixas. Em meio a essas coisas estranhas que passa pela nossa cabeça quando nos sobra silêncio, eu me perguntei por onde anda o nosso potencial criador. Todos os dias entro nessa rede social e vejo uma vitrine de produtos e serviços. O que era uma coletânea de fotos aleatórias do nosso dia a dia virou vídeos de danças para vender um conteúdo profundo que se tornou raso. Sem tocar na tristeza que é ver tantas pessoas que estão há mais de dez anos na internet compartilhando assunto gratuito sendo boicotado e passado para trás por aqueles que seguem o padrão rentável do capitalismo. E a cada segundo, eu testemunho a opressão da criatividade pela precarização do trabalho. Porém, este não é um texto exatamente sobre isso.
A criação germina no interior.
"Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz."²
Sonhar é necessário a vida. É o que nos faz ter vontade de seguir adiante. Não dá pra negar a força revolucionária que existe em nossos sentimentos. E é aqui que mora a criatividade. Tudo que se cria vem da necessidade de se tornar vivo algo que já não cabe dentro de nós. Mas este "dar à luz" não segue a lógica doentia do capital. Percebo que estamos frustrados, desgastados de manter essa tensão de tentar preservar os nossos sonhos, estes que parecem não possuir espaços no mundo. E seguimos acumulando essa energia criadora dentro de nós, ao ponto que acreditamos que ela é a causa de nosso sofrimento.
A criatividade envolve sentimentos de cura e evolução. É o sentir, a incrível possibilidade de se expressar. O sofrimento surge quando condicionamos essa criatividade à vontade do outro, aqui ela não cumpre mais o seu propósito.
A Papisa ilustra a gestação do divino e de si mesma. Ela é esta energia potencializadora que carregamos dentro de nós. Alguns chamam de essência, outros de dom. Essa criação evoca um isolamento, uma espera, até uma solidão escolhida. Aqui, se vive entre a sublimação ou a frustração. Repito, a criação germina no interior, mas se faz viva na troca.
A carta 1 do tarô, o Mago, possui em sua mesa diversas possibilidades. Ele possui como objetivo imortalizar a sua individualidade. E em tempos em que, o nosso direito de criar está sendo roubado de nós, ele vem nos pedir para que estejamos presentes! Permanecendo fieis ao que somos, vivendo em comunidade e fazendo trocas honestas, jamais nos separando da vida.
"Em um grau de que raramente nos damos conta, dependemos da participação dos outros em nossas vidas e da nossa própria participação nas vidas dos outros. Nosso sucesso e a efetividade de nossa condição de pessoas se baseiam nessa participação e na habilidade de manter a competência controladora na comunicação com os outros."¹
Se somos frutos de nossas trocas, o criar não se separa de nossa existência. A Imperatriz é esta explosão de vida. É aquela que se coloca no mundo. O que nos faz humano é a habilidade de se comunicar com outro. É nas trocas sinceras que identificamos novas potencialidades de se gerar vida. Então que possamos estar presentes no mundo de corpo e alma. Que possamos fazer trocas honestas e afetuosas com o próximo, sem jamais nos forçar.
"A ideia de ser um criador, de gerar, de formar" não é nada sem a sua contínua e grandiosa confirmação e realização no mundo(...)."²
FONTES PARA CONSULTA:
¹WAGNER, Roy. "A presunção da cultura". In:___. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac & Naify, 2010. pp. 27-46
²RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2009.
JODOROWSKY, Alejandro; COSTA, Marianne. O caminho do tarot. Editora Chave, 2021
28 de dezembro de 2020
Fé
Faltam apenas quatro dias para o início de um novo ano. O dia de Jano, deus dos portões. E tal luz que está por detrás dessa porta, vem iluminando todas as sombras que esforçamos em esconder durante o ano. Este não foi glorioso, pelo contrário, há todo momento, a vida insistia em nos mostrar a dor. O luto foi universal. Todos nós perdemos algo ao decorrer dessa caminhada. Infelizmente, alguns perderam apenas as máscaras que escondia tamanha perversidade e ganância. Vimos pessoas revelarem seu egoísmo, colocarem sua vida a frente de outra. Tudo pegou fogo. Das ruas ao pantanal. Veio a tona, a necessidade de nos cuidarmos. Em coletivo. Amor quando é singular, é expressão do ego. O amor precisa ser revolucionário. Forte. Potente. Transformador. Que começamos o ano que vem com a força necessária para vencermos as opressões que nos limitam. Que nunca percamos a fé naquele que rege nossos caminhos. E em como uma reza eu te peço, tire esse véu que me impede de ver a Verdade. Me coloque em movimento. Guiando meus passos nas encruzilhadas da vida. Não me deixe cair no erro de perder a fé naquele que está no ontem e no amanhã.
24 de fevereiro de 2019
começando a existir

A desesperada necessidade de tornar válida a existência. Esse sentimento que grita dentro de toda a nossa geração, acredito que mais do que em qualquer outra. A sociedade vem nos transmitindo tantos ideais, tantas informações, tudo na velocidade máxima, fazendo com que a vida diária seja sem graça. E é neste momento que corremos ao máximo ou paralisamos totalmente por um momento ou por algo que não existe: o futuro. Há aqueles que procuram em meios alternativos viver o agora. Mas o grande questionamento que sempre reverbera é "qual é o propósito disso tudo?".
Sempre me pego refletindo o quanto a existência individual é frágil e pequena. Quase que insignificante. Ou totalmente desprezível se comparada a grandeza da coletividade, esta que foi e está sendo construída ao decorrer de milênios. Porém a medíocre vida individual tem a capacidade de mudar toda uma coletividade. Vemos isso sendo representado nos grandes representantes dos poderes ou naqueles que por egoísmo se sentem capazes de controlar a vida do outro. E apesar de todas essas influências, tudo pode acabar com um leve sopro do universo.
A grande questão é que estamos aqui. Sendo pequenos e ao mesmo tempo gigantes, com o controle das nossas escolhas e sem o controle de seus resultados. E é o nosso instinto continuar insistindo em procurar um propósito, uma missão ou um caminho. Talvez em algum outro plano isso chegue ao fim ou talvez nós continuamos a pairar na leveza de existir. E no instante presente buscamos a independência em um mundo em que toma o nosso poder de escolha diariamente.

E é sobre essa constante busca que os filmes "Frances Ha" e "Dançando em Silêncio" retrata lindamente. Onde o erro e o fracasso fazem parte do cotidiano que é mostrado da forma mais simples e real possível. O silêncio faz parte das cenas constantemente com a finalidade de mostrar a solidão que reside internamente e externamente na vida das personagens que caminham pela frustração em busca de seus objetivos de vida. A trilha sonora e a dança ajudam em mostrar que todos esses questionamentos existenciais no final das contas são essenciais para o aprendizado individual.
Chego a conclusão de que a individualidade é muito intimista mesmo, e o que devemos buscar é a melhor maneira de expressá-la para sermos capazes de construir uma coletividade cada vez mais acolhedora. E de fato, nem sempre vamos ter consciência de todas as mudanças e de todos os seus reflexos. O peso de viver faz parte, mas a leveza também deve fazer.
7 de fevereiro de 2019
um recado para mim
a lama encobre o preconceito nacional. os memes encobrem a ansiedade pós moderna. e o medo encobre os nossos reais desejos. e nesse mundo onde somos influenciados diariamente por todos os cantos, como vamos saber quais são os nossos desejos? quais são os nossos medos? até onde essa sensação é somente minha ou é a ampliação do ser que anda ao meu lado?
somos um espelho de uma geração nova. e velha. carregamos nas costas frustrações e escolhas que não foram nossas. trazemos desejos tão surreais que podem ser acusados de insanidade. para quê tanta problematização? para quê tantos rótulos? que necessidade é essa de se encaixar em um mundo tão plural?
a questão é que nessa onda aquariana que pensa no futuro-tecnológico ou primitivo- vem a tona de que apesar da força que cada individuo coloca em seus feitos, nada, absolutamente nada, é construído e fortalecido sem a coletividade. coletividade esta que se comunica mesmo em fusos horários e idiomas diferentes. como se contentar que uma mudança que lateja no peito só será feita por mãos que não são as suas? em um tempo que não é o seu?
largando o narcisismo de lado. tirando você do centro do universo. abrindo mão do falso controle do mundo. surtando a cada dia tentando encontrar um "eu" que vá além da dualidade do mundo. usando a força criadora para a transformação. larga essa ideia de "ser lembrado". de fazer grandes feitos. acredita e crescendo, seja quem você quiser ser.
