21 de maio de 2021

A criação germina no interior, mas se faz viva nas trocas. | Prosa com tarô


Há alguns dias sinto uma inquietação no peito como se um pássaro vivesse no lugar do pulmão, preso entres os ossos da costela. Não é novidade que estamos todos exaustos. Nossa vida agora gira em torno de uma tela que emite luz azul. Um aparelho estranho quase se tornou um órgão extra que se sustenta fora de nós. E esse pássaro preso aqui dentro grita pela necessidade de voar entre os mais altos prédios até as árvores mais baixas.  

Em meio a essas coisas estranhas que passa pela nossa cabeça quando nos sobra silêncio, eu me perguntei por onde anda o nosso potencial criador. Todos os dias entro nessa rede social e vejo uma vitrine de produtos e serviços. O que era uma coletânea de fotos aleatórias do nosso dia a dia virou vídeos de danças para vender um conteúdo profundo que se tornou raso. Sem tocar na tristeza que é ver tantas pessoas que estão há mais de dez anos na internet compartilhando assunto gratuito sendo boicotado e passado para trás por aqueles que seguem o padrão rentável do capitalismo. E a cada segundo, eu testemunho a opressão da criatividade pela precarização do trabalho. Porém, este não é um texto exatamente sobre isso. 
 
A criação germina no interior.  
 
"Permita a suas avaliações seguir o desenvolvimento próprio, tranquilo e sem perturbação, algo que, como todo avanço, precisa vir de dentro e não pode ser forçado nem apressado por nada. Tudo está em deixar amadurecer e então dar à luz."² 
 
Sonhar é necessário a vida. É o que nos faz ter vontade de seguir adiante. Não dá pra negar a força revolucionária que existe em nossos sentimentos. E é aqui que mora a criatividade. Tudo que se cria vem da necessidade de se tornar vivo algo que já não cabe dentro de nós. Mas este "dar à luz" não segue a lógica doentia do capital. Percebo que estamos frustrados, desgastados de manter essa tensão de tentar preservar os nossos sonhos, estes que parecem não possuir espaços no mundo. E seguimos acumulando essa energia criadora dentro de nós, ao ponto que acreditamos que ela é a causa de nosso sofrimento. 
 
A criatividade envolve sentimentos de cura e evolução. É o sentir, a incrível possibilidade de se expressar. O sofrimento surge quando condicionamos essa criatividade à vontade do outro, aqui ela não cumpre mais o seu propósito.      
 
A Papisa ilustra a gestação do divino e de si mesma. Ela é esta energia potencializadora que carregamos dentro de nós. Alguns chamam de essência, outros de dom. Essa criação  evoca um isolamento, uma espera, até uma solidão escolhida. Aqui, se vive entre a sublimação ou a frustração. Repito, a criação germina no interior, mas se faz viva na troca.  
 
A carta 1 do tarô, o Mago, possui em sua mesa diversas possibilidades. Ele possui como objetivo imortalizar a sua individualidade. E em tempos em que, o nosso direito de criar está sendo roubado de nós, ele vem nos pedir para que estejamos presentes! Permanecendo fieis ao que somos, vivendo em comunidade e fazendo trocas honestas, jamais nos separando da vida.  
 
"Em um grau de que raramente nos damos conta, dependemos da participação dos outros em nossas vidas e da nossa própria participação nas vidas dos outros. Nosso sucesso e a efetividade de nossa condição de pessoas se baseiam nessa participação e na habilidade de manter a competência controladora na comunicação com os outros. 
 
Se somos frutos de nossas trocas, o criar não se separa de nossa existência. A Imperatriz é esta explosão de vida. É aquela que se coloca no mundo. O que nos faz humano é a habilidade de se comunicar com outro. É nas trocas sinceras que identificamos novas potencialidades de se gerar vida. Então que possamos estar presentes no mundo de corpo e alma. Que possamos fazer trocas honestas e afetuosas com o próximo, sem jamais nos forçar.  
 
"A ideia de ser um criador, de gerar, de formar" não é nada sem a sua contínua e grandiosa confirmação e realização no mundo(...)."²

FONTES PARA CONSULTA: 
¹WAGNER, Roy. "A presunção da cultura". In:___. A invenção da cultura. São Paulo: Cosac & Naify, 2010. pp. 27-46
²RILKE, Rainer Maria. Cartas a um jovem poeta. Porto Alegre: L&PM, 2009.
JODOROWSKY, Alejandro; COSTA, Marianne. O caminho do tarot. Editora Chave, 2021

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