31 de maio de 2018

Casinha verde

                                                                                                                                                                              Imagem autoral

















hoje eu acordei com essa saudade que dói o peito. e chega pra ficar. saudade daquela casinha que eu ajudei a pintar de verde. de ficar sentada na calçada jogando pedras pro alto para ver quem pegava primeiro. de quebrar coquinhos e ganhar doce na venda. de observar os carros passando pela janela. de se esconder atrás do sofá e fazer o primo imitar um radialista com aquela voz grossa e logo depois comer miojo com tudo o que tinha na geladeira. de jogar aquelas cartas que tinha escrito as raças dos bois. e escutar a tia proseando e transbordando carinho. no finalzinho de tarde sentar embaixo do umbuzeiro e ver o sol se pôr. quem dera voltar no tempo e morar no aconchego daquela casinha verde.

*Este texto faz parte da série textos antigos onde coleciono textos de fundo de caderno e guardanapos criados na correria do dia-a-dia.

Agonia.

a agonia come o peito como a cobra come o rato. agonia incessante, correria desfreante. oi, tchau. muitas coisas sem valorização. acha a arte bonita, mas só elogio não sustenta. agonia. várias ideias sendo derramadas em sua frente como quem vomita descendo pelo ralo porque não há tempo. não há tempo. notas. dinheiro. sistema fodido. sistema que te fode. vinhos baratos. amores de uma noite pra suprir a carência. beijos atolados. palavras sendo jorradas ferindo, deixando agonizar a dor sem fim. perdidos em seu próprio infinito. nas suas particularidades. no seu umbigo. perdidos dentro de si sem escutar o outro que grita. o outro que morre. agonia desfreada roendo todos os órgãos. deixando sem ar. agonia. roendo. sem ar. sem ar. roendo. penetrando nas entranhas da pele. agonia. deixando sem ar.

*Este texto faz parte da série textos antigos onde coleciono textos de fundo de caderno e guardanapos criados na correria do dia-a-dia.

Cotidiano.


   diariamente o despertador toca ás cinco e apertar o modo soneca se torna uma chance de adiar o dia. o tempo vai passando até o atraso bater na porta. corre para abrir o chuveiro e  preparar o café quando dá tempo. borra o batom em frente ao espelho do corredor. gira a chave na fechadura. confere se fechou. desce correndo as escadas. cegueira matinal com os primeiros raios de sol. desce a ladeira correndo enquanto os carros passam. as primeiras lojas abrem. filas no banco. hippie tocando música e preparando sua arte. você os inveja. corre atrás do ônibus. entra correndo procurando o cartão. passa na catraca. corre. corre. pessoas te atropelam. hora do almoço. corre. corre. final do dia. corre atrás do ônibus. o cartão sumiu de novo. pessoas tristes. os carros passam. corre. passa na padaria. sobe escadas. gira a chave. joga a bolsa no chão. o chuveiro abre. prepara o café. joga o lixo pra fora. atualiza as redes sociais. deita ás dez. mas só dorme ás três. todo santo dia.

*Este texto faz parte da série textos antigos onde coleciono textos de fundo de caderno e guardanapos criados na correria do dia-a-dia.